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Quem é Raimunda dos Cocos?

Foto de Dona Raimunda sorrindo, olhando para a câmera. O fundo da foto é um trançado de palha. Abaixo do rosto de Dona Raimunda, há uma faixa branca com a seguinte frase: Raimunda dos Cocos - Semeadora de Sonhos

Quem é Raimunda dos Cocos? Uma semeadora de sonhos e realizações.

Força, coragem e luta, palavras femininas que estão sempre junto do nome de Raimunda Gomes da Silva.
Dona Raimunda chegou ao Tocantins em 1979, em busca de um lugar onde pudesse trabalhar e tirar o sustento para si e seus seis filhos. Ainda não era conhecida como Raimunda Quebradeira de Coco, nome que recebeu depois, na militância pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Vendo grandes extensões de terra na mão de poucos, e tantos necessitando de um pedaço pequeno de chão para morar, trabalhar e acompanhar o desenvolvimento da família em segurança, começou a se movimentar junto à vizinhos e futuros companheiros na luta pela terra.

Nas próprias palavras, ela conta que sempre foi inconformada com a desigualdade. No vídeo-documentário que fala de sua realidade, em um momento ela diz: “Não é possível que a gente é pobre porque Deus quer. Como um pai deixa uns filhos com fome e outros de barriga cheia?”. Essa indignação foi o início de uma caminhada rumo à melhores condições de vida para si, e também para o coletivo. A forma de ajudar aos outros foi integrando o movimento, trazendo força e coragem. Se juntou à igreja e às pastorais na defesa dos direitos dos mais pobres.

Acreditando que o triunfo viria da união, começou a se organizar com mais trabalhadores. Fundou o Sindicato Trabalhadores Rurais de São Sebastião de Tocantins e contribuiu na fundação da Federação dos Trabalhadores Rurais do Tocantins, em 1988. Também foi responsável pela criação da Comissão Estadual da Mulher, uma das primeiras a existir no estado do Tocantins. Ainda em 88, participou dos grupos de debates para a inclusão do direito dos trabalhadores e trabalhadoras rurais na Constituinte da época.

A mulher correu o Brasil levando a realidade do Bico do Papagaio em suas palavras. Fez conhecida a batalha de tantos trabalhadores silenciados pela fome e humilhações impostas, na constante luta por dignidade e respeito, que em alguns casos, lhes custaram a vida. A coragem de Raimunda em denunciar a violência que os trabalhadores rurais da região enfrentavam, lhe rendeu ameaças, que por vezes a fez desviar do seu caminho diário para se proteger do mal que estava ali, à espreita. Nessa trajetória, perdeu um grande amigo e companheiro de luta, Padre Josimo, assassinado por defender o acesso dos pobres à terra.

Embalada pelo canto do macete e músicas que exaltam a fé e o desejo de um futuro melhor, vivendo na pele as humilhações que as mulheres quebradeiras de coco babaçu enfrentavam dia após dia para dar alimento aos filhos, se engajou na luta pelos direitos das quebradeiras de coco e pela preservação dos babaçuais, ameaçados por proprietários de terra que derrubavam, queimavam e envenenavam as palmeiras, além de colocar em risco a vida das mulheres que tentavam quebrar coco em suas propriedades. Com suas comadres, parceiras e companheiras, fundou a Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP) no começo dos anos 1992.

As mulheres da ASMUBIP uniram forças com muitas outras quebradeiras, cansadas de tantas provações que eram iguais mesmo em estados diferentes, participaram da fundação do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), reunindo quebradeiras do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. Dessa união, conseguiram o direito de se aposentar como quebradeiras e também a Lei do Babaçu Livre. Nos seus relatos, ressaltava com orgulho a conquista das casas para as quebradeiras, desejo antigo e que trouxe qualidade de vida para muitas famílias.

Pensando nas particularidades da luta das mulheres, participou ativamente da criação de um setor específico para as mulheres no Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), a Secretaria da Mulher Extrativista, dando atenção às necessidades das mulheres, as dificuldades, os desejos e sonhos. Por conta de sua articulação na Rede Mulher de Educação, foi até Pequim, a capital da China, para participar da 4ª Conferência Mundial sobre Mulher, Ação, Igualdade, Desenvolvimento e Paz. Tinha uma atuação e articulação política ativa, desenvolvendo vínculos importantes, à exemplo do encontro com o ex-presidente Lula, em 2008. Integrou a lista de 50 mulheres lideranças indicadas ao Prêmio Nobel da Paz em 2004.

Raimunda, mulher forte. Raimunda, mulher corajosa. Raimunda, mulher lutadora.

É lembrada por essas palavras quando falam sobre ela, pensando em como essa mulher inspirou tantos homens e mulheres. Foi a musa, como diz dona Maria do Socorro, para dar esperança na luta, na conquista de direitos, na dignidade desses trabalhadores. Tocou com suas palavras e atitudes lideranças do Brasil e do mundo. Na luta coletiva, Raimunda pôde ver companheiros assentados, livres da insegurança e dos despejos que foram submetidos por muito tempo.

Uma semeadora de sonhos, que teve farta colheita ao longo da vida. Raimunda, mulher-semente que germina no coração de cada um que foi alcançado por sua luta, que cresce e se fortalece em cada momento de união, como esse, em que nos reunimos para celebrar a vida e a luta de Raimunda Gomes da Silva. Em 07 de novembro de 2018, ela partiu, no conforto de seu lar, como sempre desejou. Partiu deixando um bocado de sua valentia para cada um e cada uma que se indignar com a desigualdade, que buscar viver uma vida digna.

Partiu, deixando como legado as conquistas para os trabalhadores do Bico do Papagaio. No Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, celebramos a caminhada de Raimunda e nos fortalecemos para continuar trilhando esse caminho.

Raimunda Gomes Presente! Dona Dijé Presente! Maria Adelina Presente! João Abelha Presente! Padre Josimo Presente! Margarida Alves Presente! Marielle Presente! Irmã Dorothy Presente! E todas os lutadores e lutadores que hoje são sementes e inspiração em nossa caminhada!


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