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Pesquisa aponta impactos do Coronavírus nas Comunidades Rurais do Bico do Papagaio

Impossível pensar em alimentação saudável sem o trabalho da produção agroecológica realizado pelas famílias que vivem nas comunidades rurais. Mas, já  pensaram como este trabalho é tão importante para quem vive no campo e na cidade? E, nesse momento de pandemia, como os agricultores camponeses têm sido afetados diretamente e  quais dificuldades essas famílias e comunidades enfrentam?

Para saber dessas e demais informações do que está acontecendo com as famílias agricultoras durante este período de pandemia, moradoras e moradores de três comunidades rurais relataram os desafios encontrados e falaram como o poder público pode contribuir diretamente com os camponeses.

Elizete da Costa Souza é residente do povoado de Juverlândia, município de Sítio Novo. Segundo ela, o impacto da pandemia começou no momento em que as famílias não puderam mais comercializar as produções agroecológicas. “Com a pandemia, as feiras que as pessoas vendiam os produtos fecharam. As escolas que eram um dos principais compradores para a alimentação escolar, também pararam. Mas aos poucos, a gente começou a ver outras possibilidades por meio de parcerias com as organizações”.

A jovem afirma ainda, que atualmente os problemas se expandiram. “Depois de cinco meses, o que a gente vê é boa parte dos moradores não obedecendo as regras de distanciamento social, uso de máscaras e evitar sair de casa. Minha sugestão é que o poder público passe a fiscalizar mais”, ressalta Elizete.

Com a pandemia a comercialização da produção agroecológica reduziu gerando insegurança as famílias.

Dados sobre impacto da pandemia nas comunidades rurais

A partir de diversos relatos como o de Elizete, a  APA-TO propôs e construiu uma metodologia de ação à distância a fim de acompanhar as comunidades rurais e diminuir os impactos gerados com a pandemia.  A primeira iniciativa da organização, foi decidir, a partir de março deste ano, (início do isolamento social em várias cidades brasileiras), de suspender todas as atividades presenciais junto aos agricultores e as agricultoras familiares acompanhados pela entidade, como medida de prevenção ao COVID-19 e, seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de evitar viagens e aglomerações.

A segunda iniciativa, foi realizar um levantamento com o intuito de compreender melhor esse impacto e responder, principalmente, as demandas emergenciais surgidas dos agricultores familiares em decorrência da pandemia. Assim, durante o período de 27 de abril a 15 de maio os representantes das comunidades rurais, os jovens do GT das Juventudes Rurais e do Coletivo da Juventude do MST, responderam via whatsApp, os questionários.

13 comunidades rurais  de  povoados, projetos de assentamento, acampamentos, territórios quilombolas e áreas coletivas de uso da propriedade, responderam o questionário. As comunidades que participaram do levantamento  são dos municípios de São Miguel, Sítio Novo, Axixá, Buriti, Carrasco Bonito, Araguatins e Esperantina.

As comunidades sempre procuraram resistir por meio de manifestações. Nesta pandemia, atos como este não ocorrem mais. (Arquivo – APA-TO)

Nessas comunidades vivem 1.198 famílias, 11% são consideradas do grupo de riscos (são idosos e alguns têm doenças crônicas), um total de 132. De modo geral, as famílias possuem necessidades básicas ou carências, a destacar: dificuldade de acesso a produtos de higiene, falta de alimentos, as pessoas que têm algum tipo de doença não possuem acesso aos medicamentos, além de terem dificuldade de comercializar a produção agroecológica e não terem  acesso ao serviço de saúde.

Os dados do levantamento constataram que neste momento, a maioria das comunidades explica que a produção da safra suprirá no máximo até setembro e, “se preocupam pelo fato de não estarem comercializando a produção em função do fechamento dos mercados institucionais e a suspensão das feiras”, destaca o relatório sistematizado da APA-TO.

O terceiro dado relevante desse questionário, é que 66% das comunidades expõem como um dos grandes desafios, é conter a entrada de pessoas das cidades para usufruir espaços de lazer e de bares nas comunidades. Algo que provoca aglomerações e expõe às famílias rurais aos riscos de contaminação do Covid-19.  Situação destacada por uma das moradoras.

A agricultora de um dos povoados relata que  “nessa pandemia o que mais tem ocorrido é que famílias de cidades vizinhas vêm passar o fim de semana no nosso povoado. A única ação que há da prefeitura é um carro de som que avisa que vai multar quem fizer aglomeração. Mas não há fiscalização e a população também não obedece. Minha sugestão é que tenha fiscalização mais severa”, relata a moradora do povoado de Esperantina.

Em meio à pandemia, as famílias comercializam pouco e buscam alternativas junto as organizações para se manterem.

Inseguranças nas comunidades

Outros fatores de insegurança mais citados: A chegada na comunidade de pessoas de outros estados ou cidades que tenham casos de Covid-19; precariedade das estradas; escassez de água que não permite uma higienização adequada; ausência da visita dos agentes de saúde; dificuldade de conseguir acesso às consultas médicas; pouca atenção da Secretaria de Saúde às comunidades; carência de informações e de assistência dos gestores públicos.

A liderança jovem e um dos responsáveis por aplicar o questionário na comunidade, Antonio Ly, também morador do Projeto de Assentamento Canaã, município de Buriti, expôs a sua percepção após a aplicação do questionário. “O que eu pude perceber é que as famílias têm muitas desconfianças com os poucos insumos de testes que foram disponibilizados para a comunidade. Percebo que além disso, é precária a situação como é feita os testes, pois demora muito sair o resultado. Demora cerca de 10 dias para fazer o exame”, afirma.

O jovem reforça ainda, algo percebido no resultado do levantamento do questionário, que a demora em fazer o exame e os poucos testes disponibilizados às comunidades rurais, também é um dos desafios enfrentados nessa pandemia pelos agricultores. Para ele, as medidas de afrouxamento do isolamento social e o constante aumento de casos de Covid-19 no Tocantins demonstram que as famílias rurais permanecem em uma situação de vulnerabilidade social e com mais possibilidade de contrair a doença.

Além de todas as problemáticas sociais, as famílias não tem infraestrutura e se locomovem com dificuldades devido as péssimas condições das vicinais.

 

Atos de resistência

E em contrapartida e, de modo geral, as comunidades estão desenvolvendo ações de esclarecimento as famílias sobre prevenção ao Covid-19, por meio de conversas individuais, afixando panfletos em locais estratégicos (porta da igreja, sede da associação e tanque de leite) e compartilhando as medidas de prevenção nos status e pelo whatsapp. As principais informações repassadas são: usar máscara e álcool gel; ficar em casa; evitar ir para a cidade; evitar aglomerações; não receber visitas.

Outras iniciativas adotadas é comercializar a produção entre as famílias da comunidade para evitar vender na cidade; suspensão das celebrações e, no acampamento, fechou-se o acesso à comunidade de pessoas de fora da comunidade.

Mesmo diante de tantas alternativas buscadas pelas famílias, os relatos demonstram que os agricultores camponeses, os quilombolas e as quebradeiras de coco não estão sendo assistidas e que somente as medidas comunitárias não são suficientes para diminuir os impactos da pandemia. Enquanto isso, o estado do Tocantins segue na zona vermelha de estados com um dos maiores números de infectados.

Ações de solidariedade entre as comunidades rurais é o que tem motivado e alimentado as famílias em situação de vulnerabilidade social.



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