Buscar

Websérie Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio


A propriedade agroecológica do Loro e da Socorro: cooperação familiar que constrói agricultura sustentável

Lourival Barbosa da Cunha e Maria do Socorro Oliveira são casados e moram há 26 anos no Projeto de Assentamento (PA) Mulatos, que fica em Esperantina, região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado do Tocantins. Quando conseguiram o seu pedacinho de terra, em maio de 1991, os lotes do assentamento já estavam demarcados, mas eles sempre foram envolvidos com sindicatos e associações e sabem bem como é exigente a luta de quem quer uma distribuição de terras que seja justa para todos.

O começo da vida em Esperantina foi bem difícil. Quando chegaram no PA, a Socorro estava grávida do Natanael, o segundo dos 4 filhos do casal, e eles moravam em um barraquinho de palha. Mas com muita união, a família foi enfrentando as dificuldades que apareceram pelo caminho. Em 1994, quando as crianças já estavam maiorzinhas, eles precisaram deixar de morar no lote para buscar melhores condições de estudo, já que na região do assentamento não havia as mesmas oportunidades que existem no dia de hoje. Ter que ir todos os dias da vila onde passaram a morar até o lote, para cuidar da terra, exigiu sacrifício e paciência de toda a família durante 15 anos. Mas uma coisa é certa: nenhum deles abandonou o sonho de voltar a morar no lote, de se sustentar do seu próprio pedacinho de terra. E foi em 2009, quando voltaram a morar no lote, que esse sonho começou a se tornar realidade.

Hoje, o Natanael e sua irmã mais velha já se casaram e não moram mais com os pais, e quem faz companhia para o Loro e a Socorro é o Lucas e a Luana, os filhos gêmeos do casal, de apenas 3 anos de idade. Apesar disso, todos os dias o Natanael está na casa dos pais, porque sempre gostou muito de trabalhar na terra e ajudá-los é algo que o deixa realizado.

Depois de 8 anos de muito trabalho intenso de toda a família, dá gosto de ver a propriedade deles. Ela não é uma propriedade qualquer, é uma propriedade agroecológica diversificada! Isso porque lá eles têm de tudo um pouco: horta agroecológica; sistema agroflorestal; roça; criação de galinhas, de porcos e de peixes cisterna; apicultura. E o mais legal de tudo isso é que uma coisa está integrada na outra. Além de servirem de alimento para a família, as hortaliças também são consumidas pelos animais, que retornam com as fezes, que são utilizadas como adubo junto com a cobertura verde feita do mato que é roçado e das folhas que caem das árvores, o que ajuda a melhorar o solo que recebe os plantios. É como a Socorro diz: “Aqui a gente não perde nada”.

Com tanta coisa boa num lugar só, dá para imaginar que o que não falta é trabalho. Mas para dar conta de tudo, a família inteira se envolve e se ajuda. Para que tudo seja feito com qualidade, as responsabilidades são divididas e assim não fica pesado para ninguém. Enquanto um está regando as plantas, outro está dando de comer para os animais, outro está preparando o café da manhã e assim, no dia-a-dia, a produção vai crescendo cada vez mais. Além da divisão de tarefas, quando alguma delas é mais exigente, como a colheita de mel, por exemplo, todos se juntam para fazer o mesmo serviço, que se torna muito mais leve e alegre.

Ao longo de todos esses anos, a família viu muita coisa mudar. Antes, eles produziam poucas coisas, só para consumo próprio. Agora, já tem arroz, feijão, milho, mandioca, fava, amendoim, açaí, banana, melancia, quiabo, pimenta de cheiro, pimenta ardilosa, cebolinha, rúcula, jiló, tomate, coentro, cenoura, alface, que além de serem consumidos pela família, ainda são vendidos na feira e em programas de compra direta. Com isso, a renda do Loro e da Socorro melhorou bastante, porque além de economizarem por não precisarem comprar fora, ainda dá para gerar um dinheirinho extra.

Isso sem falar nos benefícios que as experiências agroecológicas trouxeram também para a saúde da família. Produzindo sem veneno e aproveitando os recursos que a natureza nos dá, eles têm a certeza que estão consumindo e oferecendo algo saudável e de qualidade. As vantagens de trabalhar assim são várias e o Loro sabe bem: “Quando se fala agroecologia, você está imaginando qualidade de vida pra você, pra sua família e pra quem está aí no planeta”.

É assim, sempre pensando na melhoria da vida de todos, que o Loro, a Socorro e o Natanael seguem trabalhando e sonhando. Todos eles querem melhorar aquilo que já têm, para poderem cada vez mais se sustentar da terra que é deles. Além disso, fica também o desejo que as futuras gerações deem continuidade ao trabalho no campo, tão necessário e importante para a vida de todos nós. Que a experiência linda dessa família seja sinal de inspiração para que saibamos que juntos e juntas podemos fazer desse mundo um lugar melhor.

 


A apicultura dos jovens e do grupo produtivo do São Félix: interação entre famílias e gerações

Logo no início do ano de 1989, no mês de fevereiro, aconteceu algo muito importante para a vida de muitas famílias da cidade de Araguatins, no extremo norte do estado do Tocantins: foi criado o Projeto de Assentamento (PA) Santa Cruz II, que recebe esse nome por conta da fazenda que existia na região antes da terra que era de apenas um fazendeiro se tornar a terra de aproximadamente 280 famílias. Por ser uma área muito grande e para ajudar a interação entre os assentados, o PA foi dividido em setores: São Félix, Campestre, Retiro e Sede. E como o título deste informativo já revela, é sobre algumas famílias do setor São Félix que vamos falar.

Uma dessas famílias é a do Seu Joaquim. O Seu Joaquim foi um dos lutadores, dentre outros, pela criação do PA Santa Cruz II e vive nele até os dias de hoje. Com muita organização e ao lado de outros companheiros, foram várias as dificuldades e perseguições enfrentadas para que hoje ele possa dizer com alegria que criou os seis filhos em um pedacinho de terra que é seu. Além de fazer questão que os filhos e netos saibam e tenham orgulho da história do lugar onde eles moram e trabalham, Seu Joaquim também quis deixar às próximas gerações da sua família um trabalho muito importante, que ele realizou por muitos anos, até a idade já não mais permitir a mesma energia dos tempos da juventude: a apicultura!

É assim, inspirado pelo pai, que o José Irismar, mais conhecido como “Mineiro”, dá continuidade ao trabalho com as abelhas. Com o Seu Joaquim, ele aprendeu tudo o que precisa para ser um bom apicultor: como capturar as abelhas, como dividir os enxames, como identificar a rainha, os cuidados que se deve ter para fazer a colheita do mel. Fora todas essas práticas, ele aprendeu também os motivos de realizar esse trabalho, que é justamente o que o faz continuar na lida. Além do mel ser um alimento muito nutritivo e saudável, que ajuda até a prevenir algumas doenças, a renda que a comercialização do produto traz é muito boa, então a apicultura ajuda demais a aumentar a qualidade de vida de quem a pratica, sendo inclusive até mais vantajosa do que o trabalho com o gado, que exige muito espaço e muito investimento financeiro para trazer resultados razoáveis.

Mas as vantagens não acabam por aí. Existe também um benefício muito importante que o trabalho com as abelhas traz e que não há dinheiro no mundo que pague: a preservação ambiental. Para que as abelhas possam se desenvolver bem e produzir um mel de qualidade, a mata precisa estar preservada e não pode haver o uso de nenhum tipo de veneno nas plantações, que podem matar enxames inteiros. Além de ajudar a manter uma temperatura agradável, a presença da floresta no lote também colabora com a biodiversidade e garante que a polinização, tão importante para a geração de outros tantos alimentos, seja feita.

Um homem vestido de camisa de manga comprida segura uma garrafa de 900ml de mel. Ao fundo, há um tronco de árvore e uma moto preta.

Com tanta coisa boa assim, é claro que o Mineiro não poderia ficar com o conhecimento só para ele. Agora, o seu filho Felipe, de 17 anos, está começando a mexer com a apicultura também e sabe bem da importância de continuar esse trabalho tão bonito, que começou com o avô, passou pelo pai e agora está também em suas mãos. Mas não foi só a família que despertou o interesse da apicultura no coração do garoto. Com um curso de agroecologia promovido pela Associação Escola Família Agrícola (AEFA), ele foi aprendendo ainda mais e também transmite as novidades que descobre ao pai e, assim, um vai ajudando o outro a cuidar dos apiários.

Mas não é só a família deles que trabalha com abelhas no PA. Com o tempo, os apicultores da região foram percebendo que criar um grupo produtivo poderia ajudar bastante a desenvolver melhor a apicultura. Mesmo que cada um tenha seu próprio apiário e trabalhe de maneira individual, o grupo, que conta também com a presença das famílias do Cláudio e do César, é muito importante para trocar saberes e para buscar mercados e parcerias que ajudem na venda do mel e tragam melhorias para a vida de todas as famílias. Além disso, o Felipe não é o único jovem que está começando a praticar apicultura no São Félix. Seu amigo Matheus Indiano e mais dois colegas que também fizeram o curso na EFA estão muito animados com o trabalho e sempre estão com os ouvidos bem abertos a tudo que os apicultores mais experientes do grupo têm a ensinar.

Três garrafas de vidro cheias de mel em cima de uma caixa de madeira. Duas são de 900ml e uma é de 500ml. Ao fundo, tem árvores, chão arenoso e uma casa de alvenaria sem reboco.

E é assim, com essa troca inspiradora de experiências entre diferentes famílias e gerações, que a apicultura do setor São Félix tem se desenvolvido cada vez mais e está ajudando a realizar o sonho que é comum a todos os apicultores mais antigos da região: que a juventude permaneça no campo e reconheça a alegria que é tirar o sustento de uma terra que é sua!

Confira o informativo dessa experiencia aqui.


O canteiro econômico da Osmarina e do Francisco: Geração de renda, saúde e tempo

Osmarina Souza da Silva é casada  há mais de 40 anos com Francisco de Assis da Silva, mais conhecido na vizinhança como “Chico Prazer”. A comunidade onde vivem desde 1992 é o Projeto de Assentamento Ouro Verde, que fica na cidade de Araguatins – TO. Antes de conseguirem o lote no setor Barro Branco do Projeto de Assentamento, Chico e Osmarina chegaram a morar em “terra de dono”, como diz o Seu Francisco, e, por isso, sabem bem a importância e a alegria de ter uma terrinha pra chamar de sua.

Apesar da vida já ter melhorado bastante, até hoje a comunidade na qual vivem Osmarina e Francisco enfrenta algumas dificuldades. Uma delas é o abastecimento de água, que é de responsabilidade da prefeitura. É comum dar problema na bomba que distribui a água para as casas e quem mais sofre é a comunidade, que acaba ficando sem acesso a algo que é um direito básico de todos. Porém, mesmo com a escassez de água, a Dona Osmarina e seu Chico conseguem produzir cheiro verde, coentro, alface, rúcula, couve, cebolinha e pimenta de cheiro, tudo sadio e com muita qualidade. Isso é possível porque o casal tem um canteiro econômico no seu quintal.

Dona Osmarina molha os canteiros com um regador grande verde

O canteiro econômico tem esse nome por causa do seu objetivo principal, que é justamente economizar água. Diferente dos canteiros convencionais, o canteiro da Osmarina e do Francisco só precisa receber água de 8 em 8 dias, o que ajuda a economizar não só esse recurso tão precioso como também algo muito importante na vida de quem tem muito trabalho no campo: o tempo! Por não ter que separar uma horinha todos os dias para ficar regando as plantas, o casal ganhou bastante tempo para se dedicar a outras atividades, o que trouxe muita qualidade de vida para eles.

Para construir o canteiro, o trabalho foi bem cooperativo. Várias pessoas da comunidade foram até a casa da Dona Osmarina e do Seu Francisco e em um dia conseguiram fazer tudo. E a Dona Osmarina garantiu: “quem trabalhou, gostou do resultado”. A primeira coisa necessária a se fazer foi a terraplanagem do lugar onde o canteiro ia ser construído, porque se o terreno está desnivelado, pode ser que não chegue a mesma quantidade de água a todas as plantas.

Dona Osmarina e Seu Chico estão proximos aos canteiros, dona Osmarina molhando com o regador e seu Chico olhando a atividade.

Depois do solo já estar bem retinho, foi a hora de construir um retângulo com tijolos. Então, tanto as paredes desse retângulo quanto o chão, foram forrados com um plástico resistente e em seguida foi posicionado um cano com furos em todo o comprimento do canteiro, que é por onde passa a água. O fato de ter esse plástico é o que ajuda a segurar a água no canteiro por mais tempo. O cano que fica no fundo é ligado a outros dois canos, que ficam no começo e no final do canteiro na posição vertical, para que se possa colocar a mangueira para fazer a rega. Antes de colocar a terra, o cano furado é coberto com telhas, para que não corra o risco de os furos entupirem.

Por fim, vem então a camada de terra e a camada de cinzas, de esterco de galinha e de gado e tronco de palmeira, que servem de adubo para a planta crescer forte e bonita. Depois de pronto, foi só conectar a mangueira aos canos que ficam para fora e esperar a terra dar uma leve encharcada. Com a terra já úmida, bastou esperar 10 dias para deixar o estrume curtir e já foi possível plantar.

Além de ajudar na economia de água e de tempo, o canteiro também colaborou com a renda da família, que não precisa comprar as hortaliças que produz em casa e ainda consegue vender alguns produtos para as famílias da comunidade. Outro benefício que o canteiro trouxe para a vida da Osmarina e do Chico é a melhoria da saúde. O canteiro ajuda a manter as plantas mais verdinhas, porque controla melhor a temperatura, já que a terra fica úmida por mais tempo, e ainda impede que algumas pragas atinjam os cultivos, já que o plástico do fundo acaba servindo como uma proteção contra esse problema também.

Dona Osmarina está agachada colhendo cebolinha, que está com cerca de 40cm

Além disso, eles não usam veneno e sabem que estão consumindo e vendendo produtos muitos saudáveis. Um detalhe que exige cuidado e atenção, porém, é a época de inverno, quando chove muito, porque o canteiro pode alagar e isso é ruim para as plantas. Para resolver essa situação, nessa época o casal adapta os canos do canteiro de modo que a água saia do canteiro e não fique retida, prejudicando a plantação.

O canteiro econômico foi tão bom para a vida da Osmarina e do Francisco que o sonho deles é que todas as famílias do Projeto de Assentamento pudessem ter um igual aos deles. Eles também querem fazer mais canteiros e desejam que a comunidade se fortaleça cada vez mais para poder sempre reivindicar seus direitos e ter o acesso à água de qualidade garantido.

Acesse o informativo sobre o canteiro econômico aqui.


A cisterna da Edilene e do Galego: a experiência agroecológica transformadora

Jadson Guedes dos Reis, mais conhecido como “Galego”, mora há 8 anos com sua esposa Edilene no Projeto de Assentamento Nova União, que fica no extremo norte do Estado do Tocantins, na cidade de Araguatins. No seu pedacinho de terra, o casal tem de tudo: cheiro verde, alface, couve, quiabo, maxixe, melancia, mogno, açaí, maracujá. limão, goiaba, rúcula, laranja, milho, pimenta de cheiro, tomate, feijão, gergelim. Além de tudo isso, eles ainda cuidam de alguns porcos e têm criação de galinhas. É uma coisa linda de se ver! Mes nem sempre as condições foram tão favoráveis assim.

Antes da felicidade de terem sido sorteados para receber o lote, Galego e Edilene passaram 12 anos trabalhando “em terra alheia”, como comenta Edilene, tendo que obedecer a ordens de patrão. Depois disso, ainda enfrentaram mais 3 anos acampados em beira de estrada, sofrendo muito preconceito por conta dessa situação.

E até hoje lembram bem de como era o lugar quando chegaram: o lote que hoje produz de tudo, no começo, era apenas braquiária, apenas pasto. Mas com muito trabalho, aos poucos a vida do casal foi melhorando. E algo que ajudou muito a Edilene e o Galego a chegarem onde estão, apareceu há um ano e meio atrás: a oportunidade de ter uma cisterna!

Com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins), através do programa ECOFORTE foi possível obter a cisterna de placas e aprender como construí-la. Com o apoio de técnicos e de pessoas da comunidade que se reuniram em um mutirão, de pouco em pouco a cisterna foi tomando forma. Com 1,5 m de profundidade, essa alternativa simples e moderna tem capacidade de armazenar até 52 mil litros de água. A água da chuva é coletada através de um calçadão de 10 m² de área e da calha do telhado da casa, que são ligados por canos até a cisterna, que se torna um reservatório muito grande, capaz de manter a plantação durante o verão, quando a chuva é mais escassa. A água coletada é retirada da cisterna por meio de uma bomba e chega até os canteiros através de um sistema de irrigação por gotejamento, que também ajuda a economizar água e é muito eficaz.

Não há dúvidas que foi uma experiência que transformou a vida do casal. Antes, eles regavam os poucos canteiros que tinham apenas com a água do poço, que não era suficiente. Além disso, tinha todo o trabalho de ficar enchendo os baldes e ter que esperar o poço minar novamente quando toda a água tinha sido usada. Com a cisterna, eles conseguiram aumentar a produção: passaram de 2 para 10 canteiros, por exemplo. Antes, havia apenas 100 covas de melancia, pois mais do que isso seria impossível dar conta. Com a ajuda da cisterna, só nesse ano, eles já conseguiram colher 700 melancias.

O Galego garante: “Melhorou e foi muito. Não tinha como trabalhar sem ela ter vindo”. Podendo produzir mais, a renda do casal aumentou, pois além de usar os alimentos para consumo próprio, o que ajuda a economizar, porque não é preciso comprar, eles ainda conseguem vender o excedente. Além disso, dá pra ter certeza que a comida é saudável, já que a água que é usada para a irrigação é de boa qualidade e eles não usam nenhum tipo de veneno na produção.

Além de todos esses benefícios, o Galego e a Edilene usaram a criatividade e aproveitaram mais uma oportunidade: com os conhecimentos que tiveram com a construção da cisterna e utilizando a mesma tecnologia de placas, eles fizeram uma piscina que garante o lazer do casal e também dos amigos e da família, quando vêm visitá-los. Fora a diversão, essa piscina é usada também como um reservatório de água para dar de beber aos animais.

Muita coisa mudou na vida do Galego e da Edilene e eles ainda querem chegar mais longe. Os dois comentam sobre o desejo de aumentar ainda mais o número de canteiros e sabem que com a cisterna vão conseguir atingir esse objetivo. E não são só hortaliças que eles querem plantar mais. O casal também deseja ter mais árvores no quintal e ainda estende o seu sonho a outras pessoas, esperando que todos plantem mais árvores, para não haver mais desmatamento e para que possamos todos ajudar a conservar o pouco que nos resta e ainda aumentar a diversidade de plantas.

Leia mais sobre a experiência aqui.


A horta agroecológica e a criação de galinhas da comunidade quilombola da Ilha São Vicente: Alternativa à pesca em tempos de escassez

A Ilha São Vicente, que fica na cidade de Araguatins, bem ao norte do estado do Tocantins, é um pedaço de terra cercado pelas águas do Rio Araguaia por todos os lados. Nesta Ilha, vive uma comunidade quilombola que, desde o início de sua história, é sinal de muita luta e resistência. No ano de 1869, o fundador da cidade de Araguatins, Vicente Bernardino Gomes, recebeu oito escravos – dois casais e quatro crianças – como pagamento de uma dívida e resolveu mantê-los isolados na Ilha de São Vicente.

Depois de 1888, com a Lei Áurea, a terra acabou ficando com os descendentes de Henrique Julião Barros, um dos escravos trazidos naquela época, e foi passando de geração a geração até chegar às mãos das famílias que ocupam a área nos dias atuais. Porém, achar que a liberdade chegou com a abolição é um grande engano. Ainda hoje, a comunidade quilombola da Ilha São Vicente enfrenta uma série de desafios, dificuldades e descaso do poder público. Mesmo já tendo sido reconhecida como território quilombola, a área ocupada ainda está em processo de demarcação.


Um outro acontecimento que reforça o desrespeito com a vida e a história desse povo foi o despejo violento que a comunidade sofreu em 2010, onde várias casas foram incendiadas. Porém, as chamas acenderam ainda mais o fogo de resistência que arde no peito dos quilombolas, que começaram a se organizar através de uma associação que fortaleceu ainda mais a luta de permanecer no território, dando total sentido à famosa frase “a união faz a força”.

Por estarem perto de um rio, uma das atividades que mais garantiu a sobrevivência das famílias que vivem na Ilha São Vicente durante muitos anos foi a pesca. Porém, desde 1984, quando a barragem de Tucuruí chegou no estado do Pará, que faz divisa com Araguatins, se percebe como a quantidade de peixes diminuiu. Como comenta o senhor Virgílio Barros Rocha, que mora na comunidade quilombola há praticamente 70 anos, os peixes do lado de cima da barragem foram praticamente quase todos pegos, e os que estão do lado de baixo não conseguem mais subir o rio. Assim, o dourado, o filhote, o surubim, a caranha, o jaraqui e o curimatã, que antes eram comuns nos pratos das famílias, já não enchem mais as redes dos pescadores quilombolas.

Mas na tradição desse povo de luta, desistir não é opção. Se os peixes já não são a alternativa mais viável, outros caminhos têm que ser encontrados para complementar a subsistência. Por isso, toda a comunidade tem apostado muito em hortas agroecológicas e na criação de galinhas, duas experiências de agroecologia que aos poucos estão se desenvolvendo nos quintais da Ilha São Vicente. Cebolinha, coentro, couve, alface, cenoura, pimenta, abóbora, pepino, cupuaçu, bananeira, maracujá, abacaxi, melancia. Tudo isso está sendo cultivado com muito carinho na terra das famílias quilombolas.

Como a horta ainda está dando seus primeiros passos, pouca coisa pôde ser colhida até agora. Mas já dá para perceber que está desenvolvendo bem. Eles fazem consórcio de plantas, para que uma possa ajudar a outra a crescer bem bonita. Além disso, a cobertura do solo está sendo feita com folhagens, o que ajuda a manter a terra mais úmida e diminui a quantidade de mato que cresce em volta da planta. Outro cuidado que ajuda muito a garantir alimentos saudáveis para o futuro é o fato de ninguém na Ilha usar veneno. Tudo é natural. Para adubo, por exemplo, é utilizado tronco de palmeira, que vai se decompondo e dando nutrientes para o solo, e esterco de gado e galinha também.

E por falar em galinhas, a criação de aproximadamente 50 galinhas também é uma garantia importante de subsistência para o presente da comunidade quilombola, que deseja desenvolver ainda mais a criação, para que seja possível também vender e aumentar a renda das famílias. Antes as galinhas eram criadas soltas, o que fazia com que fossem mais vulneráveis ao ataque de cobras e a doenças. Hoje, elas são criadas numa área cercada e recebem ração e milho quebrado, que faz com que cresçam mais fortes.

Assim como a resistência, os sonhos na Ilha São Vicente também são grandes. Todos querem muito que a horta e a criação de galinhas tragam bons resultados, para garantir a qualidade de vida e a segurança alimentar de todos não só na comunidade, mas também para todos aqueles que comprarem os produtos que eles pretendem vender. Além disso, os habitantes mais antigos gostariam muito que os jovens permanecessem junto com a comunidade e tivessem cada vez mais oportunidades de estudo. E uma coisa é certa: enquanto há sonho, há horizonte. E quem tem horizonte, não para. A comunidade quilombola da Ilha São Vicente vai chegar longe.

Saiba mais sobre a experiência aqui.


O sistema de reaproveitamento de águas cinzas do Antônio Professor: melhoria no manejo do plantio e da criação de galinhas

Antônio Barbosa, mais conhecido como Antônio Professor, tem este apelido por um motivo muito claro: desde 1992, trabalhou 18 anos como professor na região do Projeto de Assentamento Ouro Verde, no município de Araguatins – TO, que na época ainda nem tinha sido regularizada como Projeto de Assentamento. O seu Antônio acompanhou todo o processo de luta da comunidade e quando as parcelas do assentamento foram finalmente divididas, em 1994, ele conseguiu um lote, onde mora até hoje com a esposa e o filho.

Hoje em dia, Antônio já não trabalha mais na sala de aula, mas passa o dia fazendo algo que o ensina muito: trabalhando a terra, plantando, colhendo, cuidando das suas galinhas. Dentre as tantas coisas que aprendeu, uma é essencial: sem água, não dá para fazer nada disso. Por isso, ele sabe que é muito importante economizar e coloca esse aprendizado em prática no dia-a-dia através de um sistema de reaproveitamento de águas cinzas.

As águas cinzas são aquelas que saem do chuveiro, depois que tomamos banho; da pia do banheiro, depois de lavarmos as mãos ou escovarmos os dentes; da pia da cozinha, depois de lavarmos a louça; ou do tanque e da máquina, depois de lavar roupas. Dá para perceber que é muita água que acaba indo pro ralo, mas que poderia ser utilizada para fazer muitas coisas. E é justamente essa a ideia do sistema de reaproveitamento que tem na casa do seu Antônio Professor.

Por enquanto, no sistema do Antônio, somente as águas que saem da pia da cozinha são reaproveitadas, mas ele e a família desejam aumentar o sistema no futuro para conseguir economizar e aproveitar cada vez mais.

O sistema é formado, basicamente, por 4 tambores, que são ligados um ao outro através de canos. O primeiro tambor, que recebe diretamente a água que sai da pia, funciona como uma caixa de gordura, onde fica boa parte dos resíduos de comida que boiam na água. Para minimizar a quantidade de resíduo que entra, o seu Antônio protege a boca do primeiro tambor com uma tela.

O segundo tambor funciona como um reservatório e também tira mais uma parte da sujeita, antes da água chegar no terceiro tambor. Lá, a água passa por uma camada de cascalho grosso e brita, que funciona como um filtro que faz a água chegar mais limpa ao último tambor, que, além do cascalho e da brita, tem também uma camada de areia, que ajuda a limpá-la ainda mais, antes de passar pelo filtro final e sair do sistema.

Com a água que sai do sistema de reaproveitamento, o Antônio Professor consegue irrigar por gotejamento os pés de cupuaçu, de coco da praia, de pimenta malagueta e de cacau. Mesma não sendo possível utilizar a água do sistema em todos os cultivos que tem no quintal, por não ser suficiente, Seu Antônio garante que “foi muito significante”, porque houve uma mudança muito grande na produção. O cupuaçu, por exemplo, corre o risco de morrer em épocas de menos chuva, porque precisa de bastante água. Com o sistema de reaproveitamento das águas cinzas, o pé deu frutos, mesmo nessa época do ano, porque a água que antes iria embora, foi usada para regá-lo.

Além disso, Antônio também percebeu que, depois de começar a usar a água do sistema, os cultivos tem se desenvolvido melhor e a quantidade de formigas em volta deles diminuiu.

Mas não foram só as plantas que sentiram a diferença. O manejo das galinhas também melhorou bastante. Seu Antônio disse que antes, muitas galinhas adoeciam e muitos pintinhos acabavam morrendo, porque, como são criados soltos, acabavam bebendo água que saía da pia, que muitas vezes tinha sabão, outros produtos de limpeza da louça e restos de comida que não fazem bem para a saúde das criações.

Com o sistema de reaproveitamento de águas cinzas, as galinhas já não adoecem, porque não bebem mais a água que sai direto da pia, e o seu Antônio Professor pode ficar tranquilo porque sabe que vai garantir uma alimentação de qualidade para a família.

Como todo bom professor, Antônio não poderia ficar com o conhecimento só para ele. Por isso, se coloca à disposição para ajudar a implantar o sistema na casa de outras famílias da comunidade que também queiram mudar seus hábitos de economia de água e cuidar do meio ambiente, pois sabe a importância da cooperação e de partilhar uma experiência que dá certo.

Além disso, ele acredita muito no potencial da juventude e sonha que ela esteja cada vez mais inserida na construção dessa mudança que queremos ver no mundo e dá o recado: “Enquanto a gente estiver acordado, a gente tem que estar sonhando”.

Confira o informativo aqui.


A horta agroecológica da Emília: qualidade de vida e autonomia da mulher

Emília Alves da Silva Rodrigues vive há 46 anos na cidade de São Miguel do Tocantins, que fica na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado do Tocantins. Desde que chegou, em 1971, viu muita coisa mudar onde ela mora. Logo no início, era praticamente tudo mata virgem, não tinha capoeira e as famílias que por lá chegavam faziam casas e roças onde achavam melhor.

Porém, o tempo foi passando e as coisas foram se complicando, porque a área começou a ser “terra de dono”, que muitas vezes não deixava quem já estava no local antes de continuar a trabalhar e viver. Muitas famílias, inclusive a de Dona Emília, chegaram a ser expulsas da região e tiveram que passar até dois anos foram daquela terra. Mas depois de muita luta e esperança, em 1988, foi criado o Projeto de Assentamento Pontal, que hoje é local de moraria, motivo de orgulho e garantia de produção para 27 famílias.

Viúva há 3 anos e como todos os filhos e netos criados, Dona Emília vive hoje na companhia de uma de suas netas e tira o seu sustento de dentro do próprio quintal. Com muita disposição, ela trabalha dia e noite quebrando coco babaçu, criando galinhas e cuidando com carinho da sua horta. Mas a horta da Dona Emília não é uma horta qualquer. É uma horta agroecológica!

Foi com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins) que a Emília começou a trabalhar com a agroecologia e, hoje em dia, ela não troca isso por nada. Para ela, trabalhar a terra, reconhecer sua identidade de agricultora agroecológica, é algo que traz muita dignidade.

“Agroecologia é uma escola. Cada dia que você trabalha, você aprende”, disse Dona Emília. E bota aprendizado nisso. Antes, ela costumava usar adubo químico para ajudar as hortaliças a descerem, mas foi percebendo que o efeito era muito temporário e, ainda por cima, ia transformando a terra em pó. Hoje Dona Emília sabe que é muito melhor usar adubos naturais, como o esterco de gado, galinha e de palmeira.

Com eles, as plantas crescem fortes e o solo fica escuro, fofinho o tempo inteiro, além de ter a certeza que seus alimentos não estão sendo contaminados com veneno. Sem o solo sadio, o cheiro verde, o quiabo, a abóbora, o coentro, a cebolinha, a couve, o tomate, o gengibre e a pimenta da horta da emília não conseguiriam se desenvolver bem. Por isso, além de se preocupar com o adubo que coloca nos canteiros, a Dona Emília também aproveita as folhagens das árvores que tem no quintal para fazer a cobertura da terra. Além de também ajudar o solo a ir recuperando seus nutrientes, a cobertura mantém a umidade por mais tempo.

Um exemplo disso é o cultivo da cebolinha, que antes não podia passar um dia sem ser regado que já sofria muito, e hoje em dia, com a ajuda das folhagens, pode aguentar até 3 dias com a mesma rega. E não são só esses os benefícios de fazer a cobertura dos canteiros. Dona Emília foi percebendo também que, com a folhagem na terra, o mato não cresce em volta dos cultivos e isso fez com que ela ganhasse até mais tempo para se dedicar a outras atividades, já que não precisa mais capinar os canteiros.

Sem dúvidas, a horta agroecológica da Emília trouxe muita qualidade de vida para ela e para sua família. Além de consumir um alimento sadio e de qualidade, ela ainda consegue vender seus produtos na feira da cidade, o que leva saúde também para outras famílias e garante o trocadinho do mês no bolso da Dona Emília.

E não foi só na renda e na saúde que a horta fez diferença. Trabalhar com as hortaliças trouxe também para a Emília algo que não tem preço: a autonomia! Foi com o trabalho na terra que ela foi se tornando cada vez mais livre, foi aprendendo a se virar e, com o dinheirinho que junta, não depende de ninguém. Para ela, ser mulher autônoma, que faz a sua renda, que vive a sua vida, que não precisa dar satisfação para ninguém, é bom demais. E com muita firmeza ela diz: “Depois que eu comecei a trabalhar, eu renasci”.

A horta agroecológica foi tão marcante para a vida da Dona Emília que ela sonha em desenvolver seus cultivos cada vez mais, sempre pensando no bem-estar da sua família e da sua comunidade, pela qual ela sente um carinho muito especial. E ela com certeza já está realizando esse sonho, uma vez que, a partir da sua experiência, mais 4 famílias do projeto de assentamento começaram a produzir em seus próprios quintais. E é assim, de pouco em pouco, com pessoas inspirando pessoas, sempre com muita força e esperança, que devemos seguir, buscando sempre correr atrás dos nossos sonhos e fazer do mundo um lugar melhor para todos e todas.

Você pode conferir o informativo aqui.


A cisterna da Francisca: garantia de água boa para consumo

Francisca Pereira Vieira chegou na comunidade Ouro Verde, em Araguatins, no estado do Tocantins, quando tinha 36 anos de idade. Este ano, ela completou 70 primaveras. Não é preciso nem dizer, então, que se tem alguém que conhece bem a história da região, essa pessoa é a Dona Francisca. Morando e trabalhando há 34 anos no mesmo lugar, ela já viu muita coisa mudar. E uma das mudanças mais importantes na vida dela foi a conquista da terra. Junto com a família e com outros companheiros e companheiras de luta, contando sempre com o apoio de sindicatos e movimentos sociais, Dona Francisca e seu esposo Espedito resistiu e persistiu muito até a área onde ela vive hoje ter sido demarcada e regularizada.

Porém, não foram apenas transformações alegres que a Francisca vivenciou. Mesmo estando em um lugar privilegiado, entre os rios Araguaia e Tocantins, algo que sempre foi uma dificuldade, e que vem se complicando cada vez mais, é o acesso à água. Além das alterações no curso dos rios trazidas pela construção de barragens, a distribuição da água é desigual, então grandes fazendeiros e pessoas que têm mais dinheiro, conseguem água com mais facilidade do que pequenos agricultores. E ela sabe que não é só no campo que existe esse apuro. Na cidade, a água é privatizada e custa caro ter acesso a esse recurso.

Mas como a própria Dona Francisca diz sobre sua família e comunidade, “nós somos persistentes na história”. Portanto, ela não podia ficar de braços cruzados e tinha que arranjar um jeito de melhorar a situação, porque caminhar 17km para poder buscar água sempre que precisasse estava se tornando cansativo e exigente demais.

A primeira alternativa encontrada pela Francisca foi construir um poço, que garantiu um pouco mais de água para poder regar as plantas. Mas como a água que vem do poço é salobra, a maior parte do problema ainda não tinha sido resolvida, porque não dava para consumir a água, nem lavar roupa ou dar de beber aos animais. Foi somente em 2015 que a solução chegou de verdade: uma cisterna!

“Nós tivemos duas conquistas que a gente vai morrer e não vai esquecer: uma foi a terra e a outra foi a cisterna”.

Por essa fala da Dona Francisca, dá para perceber bem o valor que essa alternativa tão simples e eficaz tem para a vida dela e da família.

A cisterna foi adquirida com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins), através do Programa ECOFORTE. Como havia mais de uma família que iria receber a cisterna, perceberam que seria importante haver um curso que ensinasse o passo-a-passo da construção e foi na casa da Francisca que esse curso aconteceu, capacitando muitas famílias de dentro e até mesmo de fora da comunidade. Depois de uma semana limpando a área, cavando o buraco e produzindo as placas, a cisterna pôde finalmente ser usada.

Quanta coisa boa aconteceu de lá pra cá! Além da água da cisterna já ser bem limpinha, a Dona Francisca ainda faz um tratamento com cloro que tira todas as bactérias e deixa a água prontinha para ser consumida. Se antes, quando a família ia visitar, era sempre uma preocupação o abastecimento de água, hoje isso já não esquenta mais a cabeça de ninguém, porque sabem que tem água para todo mundo. E como a cisterna armazena a água que vem da chuva, não é preciso tirar nenhum dinheirinho do bolso. Agora, tem água suficiente para cozinhar os alimentos, beber, lavar as roupas, fazer tudo o que antes dava muito mais trabalho para fazer. Porém, mesmo tendo água em abundância, ela e a família sabem bem da importância de preservar esse recurso e por isso sempre usam com cuidado e nunca desperdiçam.

Os benefícios trazidos pela cisterna foram tantos que trouxeram muitos sonhos para o coração da Dona Francisca. Ela quer desenvolver um sistema de irrigação que faça a água da cisterna chegar diretamente aos pés de cana, cajá, alface, rúcula, gengibre, mamão, açaí, maxixe e pepino que ela tem na horta. Quando realizar esse sonho, ela sabe que vai ficar ainda melhor, porque não vai ser mais necessário a água no balde e vai trazer ainda mais tranquilidade para a vida dela e da família. Mas ela não sonha apenas para si ou para a própria família.

Dona Francisca também gostaria muito que outras pessoas da comunidade tivessem acesso a alternativas como a cisterna, para que pudessem viver com mais saúde e qualidade de vida, e sabe que, para esse sonho se tornar realidade, algo essencial é o compromisso dos nossos governantes com a vida do povo.  Além de tudo isso, ela ainda deixa o recado: “o que a gente tem que fazer é preservar o que a gente conquistou, multiplicar e lutar por outras coisas”. Sigamos o conselho de Dona Francisca.

Você pode acessar o informativo aqui.


A horta agroecológica da Juscilene e o sistema agroflorestal da Katarina: integração entre experiencias de mãe e filha

Jucilene da Conceição mora há 10 anos no Projeto de Assentamento Sete de Janeiro, no município de Araguatins — TO. Antes de ter o próprio pedacinho de terra, ela vivia com a família no lote de seu sogro e passou 10 meses acampada, até ter a alegria de ser sorteada para receber seu próprio lote. Junto com o marido, sempre mostrou para seus sete filhos a importância de plantar, o que ajudou a despertar no coração de Katarina, sua filha de 15 anos de idade, o gosto por cultivar a terra. Hoje em dia, a Jucilene possui uma horta agroecológica e a Katarina, um sistema agroflorestal (SAF).

São duas experiências agroecológicas que fazem com que mãe e filha aprendam muito uma com a outra. Do mesmo modo que a Katarina aprende com a experiência de vida dos pais, ela ensina para a família tudo o que descobre com os seus estudos na Escola Família Agrícola. A Jucilene, por sua vez, transmite seus conhecimentos à Katarina e conti-nua sempre a aprender com as descobertas da filha e também com a participação em movimentos sociais, sindicatos e organizações. É essa troca de conhecimentos entre mãe e filha que garante o sucesso da horta agroecológica e do SAF.

Na horta da Jucilene, os venenos não têm vez. Ela, junto com sua família, cuida com muito carinho de tudo que é plantado: cebolinha, couve, alface, quiabo, coentro, tomate, rúcula, pimenta de cheiro, pimentão, milho, pepino, cenoura. Quando aparece algum inseto que pode prejudicar a horta, ela utiliza inseticidas naturais, como é o caso da água que sobra do cozimento da mandioca, da manipueira e das folhas de ninho batidas no liquidificador. Com a agroecologia, ela aprendeu que é possível plantar mais de uma hortaliça no mesmo canteiro, pois cada planta pode ajudar a outra a se desenvolver e quando chega o tempo de colher, outra variedade pode ocupar o seu lugar. Na horta agroecológica, para melhorar o solo também é tudo natural.

Aproveitando as folhas que caem das árvores, a palha do milho ou a palha da fava, por exemplo, a Jucilene faz a cobertura do solo no próprio canteiro, perto das plantas, e nos corredores que existem entre um canteiro e outro. Além de servir como adubo, as folhas não deixam o mato crescer em volta das hortaliças, ajudam a manter uma temperatura mais agradável para as plantas e também diminuem a quantidade de água que precisa ser usada para regar, já que a cobertura mantém a umidade no solo. A cobertura do solo também é um elemento muito importante para manter a qualidade de tudo que é plantado no SAF da Katarina, que é um consórcio de várias plantas, entre hortaliças e árvores frutíferas e não frutíferas: feijão, milho, berinjela, abacaxi, mogno, laranja, açaí, limão, ingá, acerola, manga.

Aqui, também se nota que uma planta ajuda a outra. O açaí, por exemplo, pode ser plantado próximo ao pé de manga para aproveitar sua sombra e os nutrientes das folhas que caem. Comparando esse sistema agroflorestal com um plantio convencional, a Katarina garante que vale muito a pena, porque num espaço pequeno (10 m x 10 m) é possível plantar muitas variedades e ainda economizar água, já que um plantio se encontra próximo do outro e não é preciso regar grandes pedaços de terra.

Os benefícios de tanto cuidado e carinho com a terra são bem claros. A renda da família melhorou bastante, porque o alimento que antes seria comprado, agora pode ser adquirido do próprio quinta. Além disso, boa parte do que é colhido, é comercializado através da COOAF-Bico (Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina Ltda). Mas não foi só o bolso que sentiu a diferença. As experiências da Juscilene e da Katarina também fizeram bem para a saúde, porque elas não usam veneno naquilo que plantam, então é tudo mais natural e saudável.

É importante destacar, por fim, que tanto para a horta, quanto para o SAF, mãe e flha reconhecem a importância do trabalho coletivos, não só da família, mas também de outros membros da comunidade. Através de visitas de intercambio de experências em outros projetos de assentamento, de mutirões e de troca de sementes e saberes, a Juscilene e a Katarina reconhecem que aprenderam muito e alimentam, juntas, o sonho de que suas experiências agroecológicas cresçam cada dia mais e que mais pessoas aprendam que é possível viver da terra.

Como a Juscilene deixa claro, ” com consciência e sabedoria, a gente rompe barreiras”. Que a experiência desta família seja grande inspiração para acreditar nesse recado e seguir lutando pela terra.

O informativo sobre essa experiência pode ser lido aqui.

 



Misereor Ford Foundation TFCA Inter America Foundation FBB Cese Brazil Foundation Fundo Amazônia PPP-Ecos Caritas Associação Nacional de Agroecologia Rede Cerrado FAOR Abong DoDesign-s Design & Marketing