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Agroecologia e a luta dos povos: 3º Encontro Tocantinense de Agroecologia debate práticas para o Bem Viver

Foto: Ruy Sposati

“A gente precisa mudar a estratégia da luta dos pobres”, disse uma quebradeira de coco a 354 pessoas apinhadas num chapéu de sol, debaixo de um toró. Pela quantidade de aplausos, a frase parece ter unificado o sentimento das quebradeiras, quilombolas, indígenas, pescadores, camponeses e movimentos sociais reunidos no Terceiro Encontro Tocantinense de Agroecologia, na aldeia Cipozal, do povo indígena Apinajé.

Intitulado “Território e agroecologia em rede: a base para o Bem Viver”, a iniciativa promovida pela Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA), rede de organizações e movimentos sociais, traz como horizonte a troca de conhecimentos das práticas agroecológicas no estado de Tocantins. O encontro aconteceu neste final de semana, de 24 a 26.

O “mal-estar generalizado” causado pela atual conjuntura política do país empurra qualquer roda de conversa para uma questão de ordem: o que fazer? Pensar o problema da agroecologia no Tocantins é refletir sobre toda a crise enfrentada pelos pobres. “Crise”, este momento do goleiro diante do pênalti a ser batido pelo time do agronegócio e do setor conservador corporativo-político local, nacional e internacional. Neste jogo, o troféu de campeão envolve “cercas elétricas, búfalos, a [empresa de derivados de babaçu] Tobasa, o eucalipto e a teca, a soja, os fazendeiros, as queimadas, as derrubadas, o sequestro das águas, a poluição e o MATOPIBA”.

O Plano de Desenvolvimento Agrário (PDA) MATOPIBA – a última fronteira agrícola do Brasil, sendo implantada nos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – agrava ainda mais a destruição do Cerrado, expulsando os povos indígenas e as comunidades. tradicionais de seus territórios.

Estado Desenvolvimentista 

O que está em jogo no projeto de estado desenvolvimentista, estratégia principal do agronegócio, é transformar a vida dos povos em matéria prima. Na abertura do encontro que debate temáticas sobre artesanato, roças agroecológicas e educação do campo, uma liderança indígena Apinajé contou a história do seu povo, da sua grande família e da aldeia onde reúnem-se mais de 300 pessoas. Fez memória do lugar por onde todos que chegaram a aldeia passaram: o perímetro urbano do município de Tocantinópolis, onde está localizada a aldeia Cipozal.

“Nos instalamos por aqui. Morávamos onde hoje é a cidade. Então começou a chegar os não-índios. Primeiro chegaram os padres. A comunidade acolheu. Nós recebemos os padres e deixamos morar na aldeia. Depois dos padres, chegaram outros”, lembrou. “A terra era grande, a gente não sabia qual era o plano dos não-índios em relação à terra. Fomos recebendo e acomodando. Depois que a gente viu, já tinha muita gente. Tocantinópolis, onde é a cidade, era o mundo. Era onde estavam as aldeias dos Apinajé”.

Foto: Edson Prudencio / APA-TO

Em sequencia, uma liderança camponesa deu continuidade ao raciocínio do indígena. “Enfrentamos a ditadura, derrubamos os militares. A gente enfrentava quem viesse. Mas nos últimos 10, 15 anos, a gente desaprendeu a lutar. O que aconteceu?” – e a pergunta não era retórica!

Um pesquisador acadêmico, único intelectual a participar do painel de discussão do primeiro dia de encontro, mergulhou na questão. Segundo ele, há séculos vem sendo implantado no Brasil um projeto de “desenvolvimento” com práticas de massacres iniciadas no período colonial e que seguem até hoje. “Começou com os portugueses. Desde então continuamos sendo os fornecedores de matéria-prima. Atualmente, Brasil é conhecido por ser um ‘produtor agrícola’. Contudo, se olhamos os números, vemos que milho e soja representa mais de 90% do que se produz de grão nesse país”.

Segundo ele, isso coloca o país numa situação de dependência e insegurança. “Qualquer problema que acontecer – como a quebra de safra, ou do mercado internacional – automaticamente coloca o Brasil em xeque”. Também porque, segundo o pesquisador, quase toda soja produzida no Brasil tem só um único comprador – a China. “É um projeto conservador de mundo e de vida”, ressaltou.

Na experiência do Bem Viver

A “era desenvolvimentista” ganhou força no Brasil justamente nas gestões de Lula e Dilma – governo – eleitos com forte apoio dos mesmos setores populares que sofrem com o projeto. Com a saída do Partido dos Trabalhadores do poder, contudo, o debate político parece lentamente se oxigenar, e algumas esferas do debate público no campo progressista tem se permitido analisar de maneira mais honesta os últimos anos de resistência anticapitalista no Brasil. “Ninguém aqui tem compromisso com o demo”, sustenta de forma enfática uma quebradeira de coco ao se referir ao projeto de morte das culturas locais de produção.

O pesquisador resumiu a experiência petista no governo federal como um governo contraditório.  “Houve uma proposta de contemporização, de conciliação de classes – um modelo de desenvolvimento que reforçou o contrário do que a gente está defendendo aqui”.

A resposta para a pergunta da camponesa do porque os movimentos populares se “desprenderam da luta” ganhava forma no desenrolar dos debates. Transversalmente a todas as colocações estava a aposta em um modelo pautado pelo Bem Viver, que passa necessariamente pela garantia do território, da terra, da água. A cobertura do encontro trará as reflexões sobre alternativas debatidas pelas quebradeiras, quilombolas, indígenas, pescadores, camponeses e movimentos sociais.

Hoje e amanhã serão realizadas oficinas temáticas sobre artesanato, roças agroecológicas e educação do campo, entre outros assuntos, além de painéis e palestras sobre agroecologia e Bem Viver.

Por Ruy Sposati – Jornalista do Encontro Tocantinense de Agroecologia, Terra Indígena Apinajé (TO)


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